Apresentação

  

19º Festival Visões Periféricas: uma utopia em movimento

 

Em 2007, o Visões Periféricas surgiu com uma proposta inovadora no panorama dos festivais brasileiros: criar uma programação inteiramente dedicada a filmes realizados por cineastas das periferias. O país revelava-se, então, por meio do olhar de quem habita esses territórios, no sentido pleno de viver suas dinâmicas sociais e afetivas, de ser com elas. As possibilidades oferecidas pelas tecnologias digitais e os novos ventos políticos daquele período impulsionaram a circulação de imagens e sons com uma potência que transformaria o cinema brasileiro em suas dimensões estética, política e econômica.

O surgimento do Visões Periféricas só foi possível graças ao trabalho desenvolvido por inúmeros projetos de formação audiovisual nas periferias brasileiras. Entre eles, destaca-se o Vídeo nas Aldeias, que completa quatro décadas de atuação. Referência incontornável do cinema indígena, seus filmes e realizadores marcam presença no festival desde a primeira edição. Homenagear esse projeto é também reconhecer todos aqueles que ajudaram a forjar aquilo que hoje chamamos de cinema de periferia.

Vinte anos depois — e após uma pandemia que obrigou o festival a interromper sua trajetória em 2020 —, a 19ª edição do Visões Periféricas mantém intacta sua missão de promover a potência do audiovisual produzido nas periferias. Neste ano, recebemos um número recorde de 856 inscrições e selecionamos 69 filmes provenientes de 18 estados brasileiros. Para alcançar essa longevidade e permanecer relevante, o festival soube acompanhar as transformações do país. O mercado audiovisual, impulsionado por essas mudanças, mostra-se hoje mais receptivo à incorporação de profissionais oriundos das periferias. Trata-se de um processo ainda em curso, mas que já revela um enorme potencial para ampliar a diversidade do audiovisual brasileiro. Nesse contexto, a 6ª edição do Visões Lab, nosso laboratório de desenvolvimento de projetos audiovisuais voltado ao mercado, reúne neste ano dez projetos, entre curtas e longas-metragens, contribuindo para fortalecer essa renovação.

Se, no início do festival, a ideia de periferia estava fortemente associada aos territórios e às desigualdades socioeconômicas, hoje ela é atravessada pelas dinâmicas das redes sociais e pelo papel central que a imagem em movimento passou a desempenhar na produção e na reinvenção das identidades periféricas. A programação do festival abre um espaço privilegiado para os cinemas identitários: o cinema comunitário, o cinema de formação, o cinema indígena, o cinema negro e o cinema LGBTQIAPN+. Mas o Visões Periféricas é também o lugar onde essas diferentes identidades, colocadas em diálogo, produzem algo que ultrapassa cada uma delas. A cada edição, novos encontros fazem surgir outras formas

de ver, narrar e imaginar o mundo, como os diversos afluentes de um rio que correm em direção ao mar. É essa a utopia em movimento que dá nome e sentido ao Visões Periféricas.

 

Marcio Blanco
Coordenação-Geral do Festival Visões Periféricas