speaker  

Homenagem do Visões Periféricas ao Vídeo nas Aldeias

Sobre Homenagem do Visões Periféricas ao Vídeo nas Aldeias

As imagens, olhadas sob as lentes de um número incontável de cosmologias ameríndias, não se tratam de um conjunto de signos que representam um sistema de códigos passível de ser organizado por uma gramática, pois, antes e acima de tudo, as imagens são vistas pelos regimes de conhecimento indígenas como modos de existência, como corpos que agem e circulam entre circuitos cósmicos e que fazem do mundo uma interconexão de múltiplos mundos. As imagens ayahuasqueiras dos Kaxinawá e os xapiri Yanomami, há algumas décadas se encontram com as imagens do cinema, com as imagens técnicas que as câmeras, as TVs e os celulares fizeram entrar nos mundos indígenas.

 

Se de um lado, os filmes e a possibilidade de fazê-los encontram os povos ameríndios através das aberturas ao convívio multiétnico que a história da colonização das Américas possibilitou, de outro, as imagens cinematográficas encontram os saberes e as práticas cosmológicas que esses grupos experimentavam imageticamente via tecnologias próprias, colocando o cinema em um domínio ontológico em que xamãs, espíritos e filmes, precisavam fabricar modos de negociação, de mútua afetação e imbricamento. Um trabalho muito difícil, mas extremamente necessário. Sem dúvidas, se hoje podemos falar em cinemas indígenas, talvez só o possamos assim nomear, devido a uma certa mistura de coragem e generosidade… Há quarenta anos, uma iniciativa louvável de produzir tal encontro, entre o cinema e os muitos mundos-indígenas “residentes” no Brasil, se meteu mata adentro com uma câmera na mão à procura das ideias ameríndias: nascia, assim, o Vídeo nas Aldeias. Um projeto que poderíamos chamar de ambicioso em 1986, mas que se mostrou, indiscutivelmente, uma das experiências mais radicais de respeito, escuta e partilha a partir da diferença. Coordenado por Vincent Carelli, o projeto percorreu ao longo de quatro décadas inúmeros territórios indígenas, não apenas documentando os contextos étnicos que encontravam, porém, mais ainda, promovendo a formação e a apropriação, por parte dos indígenas, das técnicas e métodos do fazer cinematográfico.

 

Poderíamos encher duas mãos contando os filmes que marcaram profundamente a história do cinema documentário contemporâneo, que foram fruto de processos compartilhados entre as equipes do Vídeo nas Aldeias e as populações indígenas parceiras: “O Espírito da TV” (1990), “A Arca dos Zo’é” (1993), “Corumbiara” (2009), “Pi’õnhitsi - Mulheres Xavante Sem Nome” (2009), “O Dia em Que a Lua Menstruou” (2006), “Bicicletas de Nhanderu” (2011), “Martírio” (2018), entre outros. Muito se “deve” a um gesto de inclinação, de torção nas formas dos filmes e nas formas de fazer os filmes, que se abriram aos sistemas sociais dos Wajãpi, dos Huni Kuin, dos Kaiowá, dos Guarani; se abriram às suas respectivas formulações conceituais acerca da imagem, se debruçaram sobre aquilo que suas cosmologias já acomulavam de experiências ancestrais ao lado das imagens, e que, de repente, estavam à disposição do cinema.

 

Tal gesto colocou nas telas e nas agendas de mostras e festivais, diante de todos/as e quaisquer que acessem a vasta filmografia, uma sensibilidade ameríndia forjada no e do encontro, por meio de uma abertura incontrolável ao outro, que acabava por gerar filmes. Um ato generoso não no sentido de atender a uma moral superior, mas sim na direção de uma amplificação política e sensível das potências das imagens cinematográficas, fabricadas em uma espécie de regime ético de encontros não-hierarquizados com essas alteridades. Os filmes que o Vídeo nas Aldeias trouxe ao nosso mundo, na verdade, intensificam a multiplicação dos mundos comuns que estão ao nosso alcance; filmes que agem para descontaminar nossas capacidades de visionamento e de imaginação, imagens que curam nossas retinas poluídas pela publicidade e os clichês do espetáculo, que fazem guerra contra o garimpo, contra a monocultura, contra o petróleo, que se insurgem contra a destruição iminente do que chamamos Terra. Muitas/os foram as/os colaboradoras/es de Vincent Carelli ao longo dos anos, Dominique Gallois, Takumã Kuikuro, Tatiana Soares de Almeida, Ernesto de Carvalho, Patrícia Pará Yxapy, Ariel Ortega, Divino Tserewahú entre tantos outros, indígenas ou não, que nos presentearam com filmes belíssimos, que nos ofereceram experiências cósmicas com as imagens nesses outros mundos possíveis, onde as imagens agem como força que nos lembra que os modos de existirmos juntos ainda precisam ser inventados, e que por isso, nos convida a criarmos territórios sensíveis nos quais o cinema fabula paisagens habitáveis para os diferentes, insistindo em adiar o fim de uma vida em comum, pois se recusa em nos deixar esquecer que o nosso “futuro é ancestral”.

 

Autor: Iulik Lomba de Farias

Cineasta e Antropólogo. Cineasta e Antropólogo. Doutor em Cinema e Audiovisual pela UFF, Mestre em Antropologia Social pela UFGD, Bacharel em Cinema e Audiovisual pela UFF.